A seletividade da indignação revela o que a sociedade prefere não enfrentar
Vivemos um tempo em que o barulho parece mais importante do que o conteúdo.
Em ano de eleições gerais, o país se divide em discursos inflamados, promessas recicladas e disputas que mais lembram torcidas organizadas do que debates sobre projetos de nação. Ao mesmo tempo, a Copa do Mundo ocupa telas, mesas de bar e conversas cotidianas, funcionando como uma pausa emocional coletiva – necessária, talvez, mas também conveniente para distrair a atenção de problemas que insistem em não desaparecer quando o apito final soa.
Enquanto discutimos escalações, alianças políticas e pesquisas eleitorais, feminicídios seguem acontecendo de forma constante e brutal. Mulheres continuam morrendo dentro de casa, vítimas de um ciclo de violência que a sociedade já conhece, mas parece não conseguir – ou não querer – interromper. As estatísticas chocam por alguns minutos, viram manchetes passageiras e logo são substituídas por outro escândalo, outro meme, outro assunto do momento.
Esse mesmo padrão se repete nas agressões verbais e físicas que se espalham por diferentes meios sociais. Redes digitais e espaços públicos tornaram-se palcos de reações extremas, intolerância e perda de empatia. A lógica do “nós contra eles” contamina relações, alimenta ódios e normaliza atitudes que, há poucos anos, seriam consideradas inaceitáveis.
Nesse cenário, a defesa dos animais também ocupa espaço de destaque – e com razão. A comoção gerada pela morte do cão Orelha mobilizou campanhas, protestos e indignação coletiva. No entanto, chama atenção o contraste doloroso: no mesmo período, a morte de uma criança de apenas 11 meses, atacada por um cão da raça pitbull, não provocou reflexão proporcional. Pouco se discutiu sobre responsabilidade dos tutores, falhas na fiscalização, políticas públicas de prevenção ou, sobretudo, sobre a vida humana interrompida de forma trágica.
Não se trata de escolher entre amar animais ou defender pessoas. Trata-se de questionar a seletividade da indignação. Quando uma sociedade reage com mais intensidade à morte de um animal do que à de uma criança, algo está profundamente desalinhado em seus valores. O silêncio, nesse caso, também é uma forma de discurso – e talvez o mais preocupante.
Entre eleições, campeonatos e debates acalorados, seguimos adiando conversas essenciais. Falta maturidade coletiva para transformar emoção em reflexão, e reflexão em ação. O futuro que tanto se promete nas campanhas eleitorais não se constrói apenas nas urnas ou nos estádios, mas na capacidade de reconhecer todas as vidas como dignas de luto, cuidado e responsabilidade.
Enquanto isso não acontece, continuaremos assistindo a tragédias sendo hierarquizadas por conveniência, curtidas e engajamento – e perdendo, pouco a pouco, aquilo que deveria nos unir: a humanidade.
*Editorial publicado no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 202 - fevereiro 2026 .
