
“Reflexões sobre o que nos move, nos toca e nos transforma.”
AUTOCUIDADO NÃO É LUXO:
É Saúde Mental
Em tempos de produtividade elevada, agendas cheias e cobranças constantes, o autocuidado ainda é frequentemente associado a um privilégio, algo supérfluo, reservado a quem “tem tempo” ou recursos. É preciso, no entanto, reposicionar esse conceito: autocuidado não é luxo, é uma necessidade básica de saúde mental. Sob a perspectiva psicanalítica, cuidar de si implica reconhecer-se como sujeito de desejo, limites e faltas. O discurso contemporâneo, porém, insiste em uma lógica de desempenho contínuo, na qual parar pode ser confundido com fracasso. Assim, muitas pessoas só se autorizam a descansar quando o corpo ou a mente já não sustentam mais ou quando o sofrimento psíquico se impõe como último recurso. É fundamental compreender que o adoecimento mental é democrático: ele não escolhe gênero, etnia, idade ou classe social. Pode atravessar qualquer pessoa. No entanto, as condições de enfrentamento, acesso ao cuidado e possibilidades de elaboração desse sofrimento são profundamente marcadas por desigualdades sociais. Ou seja, todos podem adoecer, mas nem todos encontram os mesmos caminhos para cuidar de si. Desmistificar o autocuidado é, portanto, retirá-lo do campo do consumo e trazê-lo para o campo da responsabilidade subjetiva. Não se trata, necessariamente, de práticas caras ou idealizadas, mas de movimentos possíveis no cotidiano: respeitar o próprio cansaço, reconhecer emoções, estabelecer limites, dizer “não” quando necessário, buscar espaços de escuta e, sobretudo, permitir-se não dar conta de tudo. É importante também repensar que a ideia de que o autocuidado é uma tarefa exclusivamente individual. Contextos sociais, econômicos e culturais atravessam diretamente essa possibilidade. Para muitas pessoas, especialmente mulheres, o cuidado com o outro ocupa um lugar central, deixando pouco espaço para si mesmas. Nesses casos, falar de autocuidado exige cuidado, para não reforçar culpa, mas sim abrir caminhos possíveis dentro da realidade de cada sujeito. Auto cuidar-se, portanto, não é se afastar do mundo, mas sustentar-se nele de forma mais saudável. É um exercício de escuta interna que permite reconhecer quando algo não vai bem e, a partir disso, mobilizar recursos internos e externos para lidar com o sofrimento da alma. Na clínica, é comum encontrar pacientes que aprenderam a negligenciar suas próprias necessidades em nome de expectativas externas. Recuperar a capacidade de se escutar é, muitas vezes, um processo gradual, que exige tempo, acolhimento e, em alguns casos, acompanhamento profissional. Falar de autocuidado como saúde mental é, portanto, um convite à mudança de perspectiva: não como um ato egoísta, mas como uma condição essencial para sustentar a vida, os vínculos e o próprio desejo. Afinal, cuidar de si é também uma forma de permanecer.
Sou Renata Machado, Psicóloga (CRP 06/220838) com ênfase em Psicanálise, e acredito que o acolhimento começa dentro de nós. Você já se escutou hoje? Já se permitiu sentir, refletir, cuidar das suas emoções com carinho? Acolher-se é um ato de coragem e amor próprio. Vamos conversar mais sobre isso?
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*Artigo publicado no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 206 - junho 2026
