REGISTRANDO: Morre Maria Lúcia Alexandre, referência na tradição das Verônicas em Joanópolis
Intérprete marcou a Semana Santa da Paróquia de São João Batista por décadas e ajudou a formar novas personagens
Morreu Maria Lúcia Alexandre, uma das principais referências da tradição das Verônicas na Paróquia de São João Batista, em Joanópolis. A trajetória da intérprete esteve ligada por décadas às celebrações da Semana Santa e à preservação de um costume religioso que atravessou gerações no município.

Lúcia começou a interpretar a Verônica em 1967, sucedendo a irmã, Mercedes Alexandre, que havia assumido o papel em 1950. Durante anos, sua voz marcou as celebrações da Semana Santa em Joanópolis. Ela permaneceu como intérprete até 1991, quando o tradicional canto da Verônica deixou de ser realizado após mudanças na organização das celebrações.
A tradição, porém, seria retomada anos depois. Em 2002, Lúcia retornou de São Paulo para Joanópolis e participou de uma apresentação que marcou o resgate do costume. Na ocasião, dividiu o momento com Expedita Tucci, outra antiga intérprete da personagem, em um encontro que ficou registrado na memória da comunidade.
Depois do retorno, Lúcia decidiu deixar a função de intérprete principal e passou a colaborar na preparação de novas cantoras. Entre as pessoas que receberam sua orientação esteve Fernanda Alves, que participou do I Encontro Estadual de Verônicas, em Piracaia, em 2002, e estreou nas celebrações da Semana Santa no ano seguinte.
Um dos últimos registros de Lúcia como Verônica ocorreu em 2001, quando ela cantou com o tradicional sudário pintado pelo artista Neief Chuffi e passou a função para Fernanda Alves. Na ocasião, Expedita Tucci também esteve em Joanópolis, em um encontro entre duas gerações de intérpretes.
A presença das Verônicas nas celebrações religiosas de Joanópolis é registrada desde o início do século XX. O primeiro nome identificado em registros históricos é o de Julieta de Almeida Moscardini, que teria interpretado a personagem entre 1908 e 1910. Desde então, outras mulheres assumiram a função e ajudaram a manter a tradição.

A personagem aparece na Via-Sacra como uma mulher que, vestida de preto e com o rosto coberto por um véu, canta um lamento diante da passagem de Cristo. Em Joanópolis, o canto tradicional é realizado em latim e integra as manifestações que unem fé, música e memória cultural.
Atualmente, a tradição segue na Paróquia de São João Batista pelas vozes de Fernanda Alves e Clarice Pereira do Lago, Ana Cristina de Melo Oliveira e Rayssa Praxedes de Oliveira que utilizam, em parte das apresentações, uma partitura com mais de 60 anos.
A história de Maria Lúcia Alexandre se confunde, assim, com a própria continuidade da tradição das Verônicas em Joanópolis. Além de ter emprestado a voz à personagem durante décadas, ela contribuiu para que outras intérpretes pudessem assumir a função e manter viva uma manifestação que faz parte da memória religiosa e cultural do município.

A despedida de Maria Lúcia
O corpo de Maria Lúcia Alexandre, falecida em 22 de agosto de 2026, foi trasladado para Joanópolis, onde recebeu as homenagens de familiares, amigos, conterrâneos e companheiros de toda uma vida.
Na Igreja São João Batista, sua trajetória foi lembrada com emoção, especialmente por sua participação como intérprete da tradicional Verônica nas procissões da Sexta-feira Santa, missão que desempenhou com fé e devoção durante décadas.

As Verônicas da atualidade, amigos e companheiros que compartilharam sua caminhada em Joanópolis também prestaram suas homenagens, mantendo viva a lembrança de sua voz e de seu amor pelas tradições de nossa cidade. Uma história marcada pela fé, pela cultura, pela música e, sobretudo, pelos laços de amizade que construiu ao longo da vida.
Última apresentação na Semana Santa de 2001, ocasião em que cantou com seu tradicional sudário pintado por Neief Chuffi e passou o cargo para Fernanda Alves. Neste dia, veio para Joanópolis uma antiga Verônica, Expedita Tucci, num encontro histórico de duas grandes intérpretes que brindou a todos com suas belíssimas vozes.
Agradecimento
O Jornal TRIBUNA da Cidade de Joanópolis/Tribuna Joa agradece ao historiador Valter Cassalho pelo envio do material histórico e jornalístico sobre as Verônicas, que foi de grande contribuição para a elaboração desta publicação.
Devido ao espaço disponível na edição impressa, não tivemos a oportunidade de publicar na íntegra a pesquisa original do historiador Valter Cassalho sobre a trajetória das Verônicas. O conteúdo agora está disponível neste site para leitura.

A Trajetória das Verônicas na Paróquia de São João Batista
A primeira Verônica de Joanópolis de que se tem registro histórico foi Julieta de Almeida Moscardini, que cantou provavelmente entre 1908 e 1910. Na década de 1930, surgiram outras intérpretes, como Maria Zenaide Pinto e Alda Frederigue de Melo. Por volta de 1937, formou-se na igreja um coro de grande destaque nas celebrações litúrgicas, que permaneceu ativo até meados dos anos 1960.
Entre os seus integrantes estavam Adilia Ferreira de Almeida, Alda Frederigue de Melo, Claro Henrique de Moraes, Geralda Amaral, Caetano Zappa Júnior, Sátiro Almeida, Lázara Campos Brambila, Silvano Mendes, Oswaldo Cunha e os organistas João Toledano Sanches e Lourdes Zappa. Era desse grupo que saíam as cantoras escolhidas para interpretar o papel da Verônica. Nas décadas de 1940 e 1950, destacaram-se Expedita Tucci, Odila Pinto, Célia Nogueira Almeida e Djanira Cuoco.
Nas décadas de 1950 e 1960, as encenações da Via-Sacra ganharam ainda mais força. Em 1950, Mercedes Alexandre assumiu o papel, encantando a comunidade tanto pela interpretação da Ave-Maria quanto pelo desempenho na Semana Santa. Suas atuações tornaram-se históricas e são lembradas até hoje. Mercedes cantou até 1966, quando foi substituída por sua irmã, Maria Lúcia Alexandre.
Lúcia estreou em 1967. Em 1968, por conta dos estudos, foi temporariamente substituída por Adélia Silveira Cruz, assumindo o posto em definitivo de 1969 a 1991. Nesse ano, com a chegada de um novo pároco, as tradições locais sofreram alterações, interrompendo o tradicional canto da Verônica. Em sinal de resistência, Dona Djanira Cuoco — uma das grandes defensoras do costume — chegou a subir as escadarias e cantar mesmo sem o traje preto tradicional.
Em 1995, com a troca de pároco, tentou-se resgatar a tradição, mas faltava uma voz com a potência e a afinação necessárias. O canto só voltou a ecoar em 2000, na voz de Dona Lourdes Gutierrez. Em 2002, atendendo a pedidos, Lúcia Alexandre retornou de São Paulo para Joanópolis, emocionando o público ao lado de Dona Expedita Tucci, que compareceu vestida a caráter. Após esse retorno, Lúcia expressou o desejo de não continuar como intérprete principal, dedicando-se à preparação de novas cantoras.
No mesmo ano, formou-se uma comissão para organizar o retorno da tradição às procissões, composta por Lúcia Alexandre, Valter Cassalho, Fernando Fontana, Walter Ricanelo Filho, Samuel Bistratini e o maestro João Toledano Sanches. O grupo preparou a jovem Fernanda Aparecida Alves, que se apresentou em agosto de 2002 no I Encontro Estadual de Verônicas, em Piracaia, e estreou na Semana Santa do ano seguinte. Em 2005, Priscila Domingues da Silva também foi treinada, passando a revezar as apresentações com Fernanda.
Anos mais tarde, a professora Neide Rodrigues Gomes preparou novas intérpretes – entre elas Lúcia Amélia Cuoco Cardoso, Lucimara Pereira Gonçalves e Clarice Pereira do Lago – com novas partituras para os Encontros de Verônicas, evento que fortaleceu a tradição regional até ser suspenso durante a pandemia.
Atualmente, Fernanda Alves e Clarice Pereira do Lago, mantêm a tradição viva na paróquia. Ambas cantam em latim utilizando a mesma partitura de mais de 60 anos atrás, revezando-se com outras intérpretes, Ana Cristina de Melo Oliveira e Rayssa Praxedes de Oliveira que cantam outras melodias em latim e português em uma tocante demonstração de fé e cultura.
Valter Cassalho
*Reportagem publicada no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 208 - setembro 2026


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