Monte das Oliveiras

Homenagem e Reflexão: A escola rural é parte da história de Joanópolis

Homenagem e Reflexão: A escola rural é parte da história de Joanópolis

Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, o Tribuna Joa destaca a importância desses profissionais para a formação de cidadãos e para o desenvolvimento da sociedade.

A data também é uma oportunidade para reconhecer a trajetória dos educadores, marcada por desafios, dedicação e reivindicações históricas.

Ao olhar para o presente dos professores, voltamos também os olhos ao passado para resgatar uma história construída com muito sacrifício.

Apesar dos avanços conquistados ao longo das décadas, a profissão ainda enfrenta desafios relacionados à valorização profissional, às condições de trabalho e à adequação da carreira às necessidades da categoria. Demandas que, muitas vezes, dependem de políticas públicas efetivas e do compromisso dos governantes com a educação.

Nesta publicação, o leitor poderá apreciar também parte dessa história, narrada pelo colaborador, o historiador e professor Valter Cassalho, através da homenagem “PROFESSORES NOTA 10!” Ao olhar para o presente dos educadores, voltamos também os olhos ao passado, para enaltecer uma trajetória que começou com muito sacrifício e que, apesar dos avanços conquistados ao longo das décadas, permanece marcada pela luta por melhorias, valorização e adequação da profissão e de seus profissionais – reivindicações que ainda esbarram, muitas vezes, na falta de vontade política dos governantes.

Neste momento de grande controvérsia em torno das escolas rurais de Joanópolis, celebrar esta data é também reafirmar sua importância histórica, social e educacional. É preciso lembrar que as duas escolas rurais que ainda resistem são parte viva dessa história e que sua possível extinção representaria não apenas o fechamento de espaços de ensino, mas o apagamento de um importante capítulo da memória e da identidade do município.

Foi assim que a educação rural ajudou a construir Joanópolis.

E é justamente por isso que o momento atual merece atenção.

Em setembro de 2026, chegou à Câmara Municipal a discussão sobre a possibilidade de fechamento das duas escolas rurais que permanecem em funcionamento no município: as unidades do Can Can e da Pedra do Carmo. A Câmara passou a solicitar oficialmente informações e documentos sobre a eventual medida e sobre a transferência dos alunos para escolas da área urbana.

No dia 22 de setembro, o Requerimento nº 121 solicitou informações e cópia de documento do Tribunal de Contas relacionado ao fechamento das escolas rurais e à transferência dos estudantes para unidades urbanas. No dia 23, o Requerimento nº 122 solicitou informações e documentos especificamente sobre a possibilidade de fechamento das escolas da Pedra do Carmo e do Can Can.

A questão, portanto, está em discussão e merece ser examinada com transparência, documentos e participação da comunidade.

Os números atuais ajudam a dimensionar o problema. Segundo dados do Censo Escolar 2025, a escola rural do Can Can tinha 13 alunos e a da Pedra do Carmo 10 alunos. São comunidades pequenas, mas não são comunidades sem importância.

Uma escola rural não pode ser analisada somente pelo número de carteiras ocupadas.

Ela representa proximidade, vínculo comunitário, identidade, segurança e menor deslocamento diário para crianças que vivem em regiões afastadas do centro urbano.

E há outro aspecto que não pode ser ignorado: a própria Prefeitura de Joanópolis continuou desenvolvendo atividades nas duas unidades ao longo de 2026. A escola do Can Can recebeu, em março, atividade do Programa Saúde na Escola sobre a importância da água. Em agosto e setembro, as escolas da Pedra do Carmo e do Can Can receberam novas ações de saúde e educação.

Ou seja: essas escolas não são apenas prédios onde acontecem aulas. Elas integram uma rede de políticas públicas que chega às comunidades rurais.

É preciso, portanto, discutir com serenidade a alegação de economia de recursos.

Se a justificativa para eventual fechamento é realmente a contenção de gastos, a população tem o direito de conhecer os números: quanto custa manter cada unidade? Quanto seria economizado? Quanto passaria a custar o transporte dos alunos? Qual seria o tempo diário de deslocamento de cada criança? Qual seria o impacto sobre as famílias? Que estrutura receberiam esses estudantes? E quais seriam as consequências pedagógicas, sociais e comunitárias?

Economizar recursos públicos é uma obrigação da administração. Mas administrar também significa avaliar o custo social e educacional de cada decisão.

Existe um abaixo-assinado público contrário ao fechamento.

O abaixo-assinado "Exigir a permanência das Escolas Rurais de Joanópolis", criado em 27 de setembro de 2026, afirma que o município já teve 18 escolas rurais e que atualmente restariam apenas essas duas. A página registra, até o fechamento desta edição, mais de 500 assinaturas e pede a manutenção das duas unidades. O abaixo-assinado pode ser acessado em: change.org/p/exigir-a-permanência-das-escolas-rurais-de-joanópolis

Também há, inclusive, uma questão legal que não pode ser deixada de lado.

Desde 2014, a Lei Federal nº 12.960 determina que o fechamento de escolas do campo seja precedido de manifestação do órgão normativo do respectivo sistema de ensino, considerando a justificativa apresentada pela secretaria de Educação, o diagnóstico do impacto da medida e a manifestação da comunidade escolar.

Portanto, antes de qualquer decisão definitiva, é fundamental que esses elementos sejam apresentados, analisados e discutidos publicamente.

E a discussão ganhou ainda mais relevância em 2026 com o PL 3.091/2024, aprovado no Senado e encaminhado à Câmara dos Deputados, que pretende disciplinar de maneira mais detalhada os processos administrativos de fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas.

O projeto ainda não é lei. Mas sua própria existência demonstra que o tema do fechamento das escolas do campo continua sendo objeto de discussão no Congresso Nacional.

Enquanto isso, Joanópolis possui uma história que não começou na cidade.

Começou também nos bairros, nas fazendas, nos caminhos de terra, nas comunidades rurais e nas pequenas salas de aula.

A educação chegou a muitos lugares porque houve professores que aceitaram enfrentar distâncias que hoje parecem inimagináveis, especialmente àqueles que fizeram da educação rural uma missão de vida.

Foram professores a cavalo.

Foram professoras de charrete.

Foram educadores que atravessaram barro, chuva, frio e estradas difíceis.

Foram profissionais que ensinaram muito mais do que letras e números: ajudaram a formar comunidades.

Por isso, quando se discute o futuro de uma escola rural, não se discute somente a manutenção de um prédio.

Discute-se uma parte da história do município.

Discute-se o direito de uma criança que mora no campo de ter uma escola próxima de sua comunidade.

Discute-se a permanência das famílias no território.

Discute-se o vínculo entre educação, cultura, saúde, comunidade e vida rural.

E discute-se, sobretudo, qual educação queremos deixar para as próximas gerações.

A história dos professores rurais de Joanópolis demonstra que a educação nunca foi resultado apenas de grandes estruturas. Muitas vezes, ela nasceu justamente do empenho, da dedicação e da coragem de profissionais que fizeram muito com pouco.

Hoje, temos estradas melhores, veículos, internet, tecnologia e recursos pedagógicos que aqueles pioneiros jamais poderiam imaginar.

Mas permanece a mesma responsabilidade: garantir que a criança que vive no campo tenha acesso a uma educação de qualidade, respeitando sua realidade e sua comunidade.

Que qualquer decisão sobre as escolas rurais seja, portanto, precedida de transparência, estudos, números, participação da comunidade e respeito à legislação.

Porque uma escola pode ter poucos alunos.

Mas cada aluno tem um futuro.

E cada comunidade tem uma história.

E às comunidades do Can Can e da Pedra do Carmo, fica uma lembrança que deveria orientar qualquer decisão pública:

A educação que chegou ao campo com tanto esforço não deveria ser retirada do campo sem que antes se demonstre, com transparência, que todas as alternativas foram estudadas e que os direitos dos alunos e das comunidades foram plenamente considerados.

PROFESSORES NOTA 10!

(Valter Cassalho)

Em Joanópolis, a primeira cadeira de letras foi criada em 1833, o que comprova que o bairro do Curralinho — pertencente a Santo Antônio da Cachoeira — já era bastante populoso. As demais cadeiras foram surgindo conforme a necessidade, como as do bairro dos Pretos, em 1893, e da Moenda, em 1901, todas exclusivamente masculinas. A primeira cadeira feminina foi criada em 1895, mas permaneceu vaga até 1907. Isso levou a professora Bruna Caparica Filha a organizar a primeira escola particular mista do município, uma grande inovação para a época! Em algumas fazendas mais abastadas, os proprietários contratavam professores particulares para educar seus filhos e, por vezes, permitiam que os filhos dos colonos também frequentassem as aulas. Foi o caso do fazendeiro Cândido Mathias Franco, no bairro da Moenda, e de Felisbino de Souza Bueno, que contratou o professor Elócio para sua propriedade no bairro dos Pires. Vários educadores se destacaram no município, como o ilustre Professor João Candelária Sobrinho, a pioneira Bruna Caparica Filha e a inesquecível Adília Ferreira de Almeida. As grandes distâncias e a escassez de meios de transporte tornavam o exercício da profissão uma verdadeira jornada. Os professores das escolas rurais viajavam a cavalo por horas, carregando seus materiais, enfrentando as fortes chuvas de verão e o frio rigoroso do inverno. Em locais mais distantes, como o bairro do Bonfim, era comum que ficassem alojados nas próprias fazendas. Entre as décadas de 1930 e 1940, o número de escolas cresceu e a presença feminina na docência se consolidou. As professoras passavam a chegar ao trabalho de charrete, muitas vezes conduzidas por jovens condutores locais. Havia também as mais corajosas que, montadas a silhão, cavalgavam sozinhas até as salas de aula. Muitas despertavam antes do amanhecer e, protegidas por longas capas impermeáveis, seguiam por estradas precárias e lamaçais nos dias de chuva contínua. Com a chegada do automóvel, a rotina melhorou ligeiramente para as poucas que podiam custeá-lo. Mais tarde, com as rotas dos caminhões leiteiros, muitas recorriam a caronas para atravessar o município nas primeiras horas da manhã, retornando a pé no final do dia na esperança de conseguir outro transporte. Além do desafio do deslocamento, as aulas eram ministradas em salas multisseriadas: uma única professora atendia a três turmas simultaneamente, dividindo a pequena lousa em três partes. Em poucas horas de aula, essas educadoras desdobravam-se para dar conta do conteúdo e ainda atuavam como agentes comunitárias, ensinando noções fundamentais de saúde e higiene pessoal.

Neste Dia dos Professores, prestamos nossa homenagem a esses homens e mulheres que venceram o frio, a chuva, o vento, o barro e as longas distâncias para levar o conhecimento básico. À fibra e à dedicação dos professores deste imenso País, a nossa nota dez!

*Reportagem publicada no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 209  – outubro 2026 – e atualizada em nosso portal online

 

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