Bastidores e OPINIÃO
São Paulo consolida a força conservadora, enquanto o Brasil aguarda um segundo turno presidencial
O resultado das urnas revela uma disputa política presidencial polarizada, a ascensão de novas lideranças e o peso crescente das redes sociais na formação do voto brasileiro
As eleições gerais de 4 de outubro de 2026 desenham um novo cenário político no Brasil. Com a renovação de governos e de parte expressiva do Congresso Nacional, o pleito evidencia a força da polarização ideológica, a ascensão de lideranças digitais e a dificuldade de construção de consensos em torno de um projeto nacional. A disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) segue para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, após nenhum dos candidatos alcançar a maioria absoluta dos votos válidos no primeiro turno. Flávio vence o primeiro turno à frente com 47,03% a 45,16% do atual mandatário.
Em São Paulo, o resultado reforça a presença da direita e do conservadorismo. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi reeleito, com 62,65% dos votos válidos, enquanto Guilherme Derrite (PP), com 30,59% dos votos, e André do Prado (PL), com 29,28%, conquistaram as duas vagas paulistas no Senado. Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) ficaram atrás na disputa.

Na Câmara dos Deputados, um dos fatos mais expressivos foi a votação histórica de Lucas Pavanato (PL-SP), de 28 anos, que ultrapassou a marca de 3 milhões de votos e se tornou o deputado federal mais votado de São Paulo. Erika Hilton (PSOL-SP), por sua vez, também alcançou uma votação extraordinária, superior a 1,4 milhão de votos, consolidando-se como uma das principais expressões da esquerda.
A Assembleia Legislativa de São Paulo também aponta uma renovação geracional de grande impacto. Eduarda Campopiano (PL-SP), de apenas 23 anos, conquistou a maior votação para deputada estadual, superando a marca de 1,9 milhão de votos. Seu desempenho evidencia o potencial eleitoral de candidaturas jovens que associam comunicação digital, identidade ideológica e mobilização de públicos nas redes sociais.
Essas votações, entretanto, não representam necessariamente uma rejeição generalizada à política tradicional, mas sinalizam uma transformação na maneira de fazer campanha e conquistar eleitores. A capacidade de comunicação direta, a identificação com pautas conservadoras ou progressistas e a presença constante no ambiente digital tornaram-se ativos eleitorais decisivos. O fenômeno também impõe uma reflexão sobre a responsabilidade pública de lideranças que chegam ao Legislativo com grande respaldo popular.
No plano nacional, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro confirma que o país permanece dividido entre campos políticos com visões distintas sobre economia, políticas sociais, costumes, segurança pública e o papel do Estado. O segundo turno será decisivo não apenas para escolher o próximo presidente, mas também para estabelecer as condições de governabilidade e o grau de estabilidade política dos próximos anos. Lula traz bagagem para disputar um 4º mandato à presidência, e, Flávio, além da carreira política trilhada até o momento como deputado estadual – de 2003 a 2019 e senador da República pelo RJ eleito em 2018, a representação da força conservadora no país através de seu pai, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. Embora notório a história e bagagem de Lula e a superação do percentual de 47,03% alcançado por Flávio diante de seu pai nas eleições de 2018 e 2022, a decisão permanece nas mãos do eleitorado.
O recado das urnas é claro: o eleitor brasileiro continua buscando representação, mudança e respostas concretas para problemas cotidianos, mas essas expectativas se expressam por caminhos ideológicos diferentes. A renovação de nomes e a força das votações individuais não garantem, por si só, avanços institucionais. O desafio dos eleitos será converter votos em políticas públicas, fiscalizar o poder, respeitar as instituições democráticas e responder às necessidades da população.
Mais do que a vitória de partidos ou candidatos, a eleição de 2026 coloca em evidência a responsabilidade de reconstruir pontes em uma sociedade politicamente dividida. E um país que caminha há tempos com a pesada insígnia de corrupção, desgovernança, funcionamento inadequado das instituições, e total insegurança jurídica dos cidadãos.
*Artigo publicado no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 209 - outubro 2026


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