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Publicada em: 16/08/2026 22:49 -

Transparência pública não pode ser moeda de troca pelo voto

 

A máquina pública deve servir ao interesse coletivo, não a projetos pessoais, familiares ou eleitorais, sob pena de a sociedade pagar a conta da irresponsabilidade na gestão dos recursos públicos

 

A política brasileira convive há décadas com um problema que ultrapassa ideologias e partidos: a distância entre o discurso apresentado ao eleitor e a realidade praticada por parte dos agentes públicos. Em uma democracia, a transparência deveria ser princípio elementar da administração pública – não uma escolha conveniente conforme as circunstâncias políticas.

 

Mentiras, omissões deliberadas, promessas inviáveis e informações manipuladas não podem ser tratados como simples estratégias eleitorais. Quando utilizados para conquistar votos, esses expedientes comprometem a própria essência da representação política. O eleitor deixa de decidir a partir de informações verdadeiras e passa a ser conduzido por uma realidade construída para produzir determinado resultado nas urnas.

 

O problema se agrava quando o poder público é utilizado para estabelecer relações de favorecimento pessoal. A nomeação de parentes, a distribuição de benefícios a aliados, o atendimento privilegiado a determinados grupos e a utilização da estrutura administrativa em benefício de interesses particulares alimentam uma velha prática patrimonialista: a confusão entre aquilo que pertence ao Estado e aquilo que pertence ao governante.

 

Não se trata de afirmar que toda nomeação, decisão administrativa ou política pública seja necessariamente ilegal ou ilegítima. O ponto central é outro: a administração pública não pode ser transformada em instrumento de recompensa pessoal, familiar ou eleitoral. O cargo público não é propriedade de quem o ocupa, e os recursos públicos não constituem patrimônio particular de governos ou grupos políticos.

 

Também merece atenção a irresponsabilidade no discurso político. Governantes e candidatos que prometem sem explicar custos, limites e consequências contribuem para uma cultura de expectativas artificiais. Depois das eleições, a conta costuma aparecer em forma de aumento de despesas, serviços deficientes, endividamento ou frustração social. A responsabilidade deveria começar justamente onde termina a propaganda.

 

A transparência, portanto, não significa apenas publicar números, documentos ou atos oficiais. Significa permitir que a sociedade saiba quem decidiu, por que decidiu, quanto será gasto, quem será beneficiado e quais serão as consequências daquela decisão. É transformar a informação pública em instrumento efetivo de fiscalização, e não em mera formalidade burocrática.

 

A democracia também não pode ser reduzida ao momento da votação. O cidadão não entrega um cheque em branco ao eleito quando deposita seu voto na urna. Ao contrário: o voto concede uma responsabilidade temporária, sujeita à fiscalização permanente da sociedade, da imprensa, dos órgãos de controle e das instituições.

 

Nesse cenário, combater a mentira, a omissão e o favorecimento não deveria ser uma bandeira de esquerda ou de direita. Deveria ser uma exigência básica de qualquer sociedade que pretenda levar a sério a República.

O Brasil não precisa apenas de políticos que saibam vencer eleições. Precisa de agentes públicos capazes de governar sem transformar a verdade em obstáculo, o orçamento em instrumento de influência e o poder em benefício privado.

 

A maior ameaça à democracia talvez não esteja apenas na corrupção explícita, mas também na normalização de pequenas concessões éticas: a informação escondida, a promessa irresponsável, o parente privilegiado, o aliado beneficiado, o cidadão comum colocado em segundo plano. Quando essas práticas passam a ser consideradas normais, a exceção transforma-se em método – e o interesse público deixa de ser prioridade.

 

No fim, a verdadeira transparência não é aquela que o governante oferece quando lhe convém. É aquela que permanece mesmo quando os números, as decisões e os resultados não são favoráveis.

 

Enfim, assunto exaustivamente debatido nas ruas e comércio local nos últimos dias, confirma o porquê governar para conquistar votos é política. Governar enganando o cidadão é outra coisa.

 

*Coluna publicada no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 207 - julho/agosto 2026

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