Monte das Oliveiras

TRIBUNA NO DIVÃ

TRIBUNA NO DIVÃ

“Reflexões sobre o que nos move, nos toca e nos transforma.”

O SILÊNCIO DAS EMOÇÕES

Por que ainda é tão difícil falar sobre o que sentimos?

Apesar dos avanços no debate sobre saúde mental, falar de sentimentos ainda é, para muitos, um território delicado, quando não evitado. Em diferentes contextos, especialmente nos ambientes familiares e profissionais, a expressão emocional segue atravessada por silêncios, constrangimentos e, muitas vezes, por uma ideia implícita de fraqueza.

Desde cedo, aprendemos, de forma explícita ou sutil, quais emoções podem ou não ser demonstradas. Frases como “engole o choro”, “isso não é nada”, ou “seja, forte” não apenas deslegitimam o sentir, como também ensinam que determinadas experiências emocionais devem ser ocultadas, guardadas e/ou recalcadas. Forma-se, assim, uma cultura do silêncio emocional. No entanto, o que não é dito não deixa de existir, apenas se desloca para o corpo, para os sintomas, para os conflitos.

Sob a ótica psicanalítica, aquilo que não encontra espaço na palavra tende a se manifestar de outras formas. O não dito insiste. Emoções reprimidas podem emergir como ansiedade, irritabilidade, somatizações ou dificuldades nos vínculos. Falar, portanto, não é apenas um ato de comunicação, mas um processo de elaboração psíquica, uma tentativa de dar sentido ao que, inicialmente, pode parecer caótico.

Nos contextos familiares, o silêncio muitas vezes se sustenta por dinâmicas intergeracionais, passando dos pais aos filhos. Há famílias em que sentimentos nunca foram nomeados, onde conflitos são evitados e vulnerabilidades não encontram acolhimento. Romper esse padrão pode gerar desconforto, pois implica questionar modos de funcionamento já naturalizados.

No ambiente profissional, por sua vez, a lógica da produtividade frequentemente não abre espaço para a subjetividade. Espera-se desempenho, controle e eficiência, como se o sujeito pudesse se dissociar de suas emoções ao atravessar a porta do trabalho. Nesse cenário, expressar sentimentos pode ser interpretado como falta de preparo ou fragilidade, reforçando ainda mais o silenciamento.

Mas a pergunta permanece: a quem serve esse silêncio?

Falar de sentimentos não significa expor-se indiscriminadamente, tampouco transformar todos os espaços em locais de confissão. Trata-se, antes, de construir possibilidades de expressão responsáveis, contextualizadas e, sobretudo, legítimas. É reconhecer que sentir não é um desvio, mas parte constitutiva da experiência humana.

Criar espaços de escuta, seja em relações de confiança, seja em contextos psicoterapêuticos, é fundamental para que o sujeito possa se apropriar de sua própria narrativa. Nomear o que se sente é um passo importante para compreender, elaborar e, eventualmente, transformar, ressignificar.

Talvez o maior desafio não seja apenas falar, mas sustentar a escuta de si e do outro sem julgamento, sem pressa, sem a necessidade imediata de solução.

Falar de sentimentos ainda pode ser tabu. Mas, cada vez que alguém encontra uma forma de dizer, ainda que com hesitação, algo desse silêncio começa a se deslocar. É nesse movimento que novas formas de existir e se relacionar podem emergir.

Falar é promoção de saúde mental.

Sou Renata Machado, Psicóloga Clínica (CRP 06/220838) com ênfase em Psicanálise, e acredito que o acolhimento começa dentro de nós. Você já se escutou hoje? Já se permitiu sentir, refletir, cuidar das suas emoções com carinho? Acolher-se é um ato de coragem e amor próprio. Vamos conversar mais sobre isso? Atendimento presencial e online – WhatsApp (11) 98565-8481 - E-mail: renatamachado.psic@gmail.com Instagram: @RenataSuthoffPsic

*Artigo publicado no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 207 - julho/agosto 2026

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